O crediário cresceu 29% no ano passado em relação a 2015 e deve alcançar alta de 35% este ano. Com prazos maiores, juros baratos e alternativa de autofinanciamento, lojistas e consumidores optam pelo setor para fugir do endividamento no sistema financeiro.

Os dados são da Multicrédito e apontam que o crescimento foi constante ao longo do ano passado, chegando à alta de 35% em dezembro de 2016 ante igual mês de 2015.

De acordo com os executivos entrevistados pelo DCI, a mobilidade da linha de crédito e a facilidade de negociação na relação entre lojista e consumidor têm impulsionado esse crescimento.

“Enquanto o cartão e os empréstimos bancários têm parcelas e negociações engessadas, o crediário coloca atrativos e maior possibilidade de adaptação por ambas as partes”, explica Milton Goetten de Lima, sócio-fundador da Meu Crediário.

Do lado dos lojistas, a crescente restrição bancária durante a crise limitou os financiamentos e fluxo de caixa.

“O empresário começou a buscar alternativas de autofinanciamento e, com o crediário, ele consegue não apenas atrair novos consumidores e melhorar as vendas, como também minimizar sua dependência do mercado financeiro”, identifica Flávio Peralta, vice-presidente comercial da Multicrédito em entrevista ao DCI.

Da outra ponta, os consumidores que não conseguem mais empréstimos bancários ou limites no cartão de crédito convencional enxergam no crediário a possibilidade de alongamento nos prazos, negociação das parcelas e taxas de juros limitadas a 1%.

“O mote dos anúncios não é o valor do produto a ser vendido, mas o quanto e o quando o consumidor quer pagar”, acrescenta Peralta, e afirma que “o gancho foi a maioria do público”, desbancarizada e com renda mais baixa.

“Isso impulsionou, intensamente, uma migração do uso do cartão de crédito para o crediário das lojas ao longo de 2016”, completa o vice-presidente da Multicrédito.

Segundo dados do Banco Central (BC), o cartão de crédito rotativo e parcelado para pessoas físicas mostrou recuo de 8,2% em dezembro passado com relação ao acumulado de 12 meses e do ano. Para pessoas jurídicas a queda foi de 22,6% na mesma comparação.

No viés das pessoas jurídicas, principalmente para os pequenos e médios lojistas, cujo ticket médio fica em torno de R$ 350, a flexibilidade das parcelas de acordo com a capacidade de venda do consumidor e do capital de giro da empresa, também tem sido um diferencial para a linha.

“Muitos setores, como ótica, móveis, calçados e confecção, optam pelo crediário, exatamente porque perceberam que começam a atrair uma nova leva de clientes para a loja e fornece o capital de giro que, por causa da recessão, estava em falta”, completa Milton Lima.

Ciclo vicioso

Os executivos, no entanto, ressaltam a probabilidade de aumento de risco. Os altos índices de inadimplência no setor de crédito no Brasil, tanto de pessoas físicas como de jurídicas, têm impactado fortemente as concessões.

Ainda de acordo com dados do BC, apesar da leve desaceleração dos indicadores no último mês de 2016, os calotes das empresas estão em 4,5% no cartão de crédito, enquanto o parcelado das pessoas físicas está em 5,2%. “Houve alta expressiva da renegociação no crediário porque, apesar da intenção de pagamento, não há orçamento”, comenta Lima, do Meu Crediário.

O executivo afirma que, nesse quesito, é importante que a renegociação seja feita de forma a ser honrada e que, frente ao cenário de retomada gradual para a economia do País, o lojista “precisa de atenção”.

“Não adianta fazer uma renegociação que o devedor não consiga pagar. O crediário sobe, mas o risco também. A tendência de as pessoas deixarem de pagar ainda é muito latente no setor e, com receio, o lojista deixa de ceder o crédito e o segmento vive um ciclo vicioso até a volta da economia”, acrescenta o sócio-fundador.

Para Peralta, porém, apesar dos altos índices de calote, o crediário tende a continuar crescendo tanto porque o consumidor começa a pesquisar mais , como pela movimento mais forte de “independência bancária” pelas empresas.

“As empresas já estão investindo em tecnologias que evitem isso, e o consumidor está mais consciente”, avalia.

Ele ainda reforça que, em um primeiro momento pelo menos, isso ainda deve se alavancar em 2017. “Com o investimento em inteligência de crédito, as carteiras tendem a ficar mais sadias e a projeção é de crescimento em 35% para este ano”, conclui Peralta.

Fonte: JusBrasil.